quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

A Princesa

Era metade dos anos 90 quando meu pai alugou um filme em VHS para ele assistir e eu o acompanhei. Gostei, mas eu era pequeno e não havia entendido direito. Um tempo depois, na casa da minha avó, em uma tarde, a televisão estava ligada na globo, e ali estava aquele filme que meu pai havia alugado. A lembrança daqueles homens vestindo armaduras brancas, junto de um macaco gigante, resgatando uma moça vestida toda de branco marcou o início de uma paixão que carrego no fundo do meu coração até hoje, e levarei até meu último suspiro.
É interessante ser um fã desde pequeno de Guerra nas Estrelas (na minha época era assim que se chamava), mesmo eu tendo nascido anos depois do lançamento do último filme da saga, e viver em uma época em que é moda gostar deste universo criado por George Lucas. Interessante por motivos ruins e bons. Ruins pois ainda tenho preconceito com “modas”, e desde a popularização do termo e estilo “Nerd”, Star Wars é um dos principais assuntos tratados pela geração do século XXI.
Fico um tanto irritado quando pessoas que se dizem “Nerds” falam que viram o novo Star Wars (Rogue One), que gostaram muito do filme, mas que não entenderam por que Darth Vader aparece se ele já morreu? Ou o que a Ray está fazendo ali no meio dos rebeldes se ela está treinando com “aquele velho do final do Despertar da Força”? Sim! Ouvi e li esses absurdos. Seguidamente passei por imagens na internet, gráficos e ilustrações que ensinam o novo “fã” em que período de tempo se passa o novo filme. Mas depois da irritação, vem a tranquilidade, pois se não fosse esse fã, que compra ingressos no cinema, que compra “bonequinhos”, brinquedos e tantos outros produtos relacionados à saga, não haveria mais saga! Ela terminaria no episódio III, a treze anos atrás, e jamais teríamos esse bombardeio de conteúdo, objetos e informação sobre esse universo que tanto amamos. Aos novos fãs de Star Wars: Obrigado! Mas procurem se informar antes de falarem ou escreverem besteiras.


[Abaixo contém Spoiler]







Sobre Rogue One. Finalmente assisti ao filme, mas infelizmente em um momento trágico. Um dia depois da morte de Carrie Fisher, nossa eterna Princesa Leia Organa, que descansa com a eterna força que lhes enviamos.
Assistindo o filme, me deliciei com as referências colocadas lá para os verdadeiros fãs de Star Wars. Certamente me fugiram alguns pois não consegui acompanhar as séries animadas The Clone Wars e Rebels, mas fico feliz por elas estarem lá e costurarem as diversas histórias que são narradas neste vasto universo. Por pouco mais de duas horas, voltei a ser aquele menino de seis, sete anos, que assistiu pela primeira vez na vida Uma Nova Esperança e, como uma criança, chorou emocionado no desfecho do novo filme que se conecta direto ao longa de 1977. Não um choro de emoção por estar assistindo um filme da sua saga preferida, mas sim pelo difícil momento que muitos fãs passaram nos últimos dois dias.
A sequência final, onde os soldados rebeldes carregam as informações da Estrela da Morte, fugindo do maior e mais querido vilão de toda a história do cinema, foi me acelerando o coração enquanto meu cérebro se dividia entre apreciar a linda cena que se desenrolava diante de meus olhos e imaginar o que viria à seguir. E veio. Ela, nossa eterna Princesa, aparece, carregando a força e a esperança que será (e foi) desenvolvida na trilogia clássica.
Foi difícil conter as lágrimas, sabendo que pouco mais de 24 horas atrás, a atriz que nos trouxe essa personagem, nos deixou. E será difícil assistir seu último adeus no próximo filme a estrear em dezembro de 2017.
Terei um ano para me preparar para o choque de vê-la, sabendo que ela não está mais entre nós. E mesmo que eu esteja certo que conseguirei conter minhas lágrimas, levarei uma caixa de lenços caso eu falhe miseravelmente.

À nossa eterna Princesa Leia, muito obrigado e que a Força esteja com você!



quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

O Soltador de Rojões

- Bom dia Carlos!
- Bom dia.

Carlos sentou-se na cadeira para a entrevista de emprego. Seu entrevistador, diante dele, segurava seu currículo e fazia anotações.

Vi o seu currículo e achei bastante interessante. Muitas coisas para serem aproveitadas aqui na empresa.
Muito obrigado!
Quero saber um pouco mais de ti. É formado em administração com uma pós em economia né?
Exatamente. Fiz alguns cursos curtos também durante a faculdade.

O entrevistador fez algumas notas no currículo de Carlos.

Ótimo! Várias experiências. Vejo que fala inglês.
Fluente. Leitura, escrita e conversação.
Oh yes. Did your speak is good?
I think so.

Mais algumas notas foram feitas. Provavelmente coisas boas.

Tem conhecimentos de informática também né. Pode falar sobre isso?
Claro! Fiz curso de Office e tenho muita experiência com tabelas em Excel. Cálculos, fórmulas, gráficos.
Muito bom! Trabalhamos aqui um pouco com redes sociais também. Está familiarizado com elas?
Sou sim. Facebook, Twitter, Instagram, e algumas outras, mas principalmente essas.
Ótimo!

O Entrevistador era uma máquina de fazer anotações. O currículo de carlos estava cheio das letras e rabiscos azuis.

E rojões? Você solta?
Hã? Heim?
Rojões. Fogos de artifício. Solta?
Ah… Sim… Solto… De vez em quando.
Ahmm.

O Entrevistador baixou o currículo de Carlos sobre a mesa e olhou seriamente para seu entrevistado.

E com que frequência?
Ah... Bom… Natal, ano novo…
Gosta de futebol?
Sim… Gosto.
Tu torce para o Itambaguaiense?
Ahmm… Sim.
Viu o jogo ontem à noite?
Vi.

As axilas de Carlos já estavam inundadas e torcia para que o Entrevistador não visse as rodelas. O por enquanto ainda ajudava a esconder. Mas que porcarias de perguntas são essas?

Parabéns! O teu time ganhou. Sabe, eu também sou Itambaguaiense.
Que legal.

O susto foi diminuindo. Que história era aquela de rojões? O Entrevistador já estava sorridente.

Soltou rojões ontem?
Ahm… Sim.

E lá se foi o sorriso.

Hum. Quantos?
Um! Um só.
Um ainda assim é bastante barulhento.
Um pouco. Mas o meu não era tanto assim.
Mesmo assim ele explodiu né?
Sim.
Bom. Eu não soltei rojões.

O Entrevistador largou a caneta azul, abriu uma gaveta de sua escrivaninha e de lá puxou uma caneta vermelha. Agora os rabiscos vermelhos no currículo tomavam conta.

Ah… O que o senhor está escrevendo?
Só umas anotações. Algumas coisinhas pra eu lembrar ou destacar.
Mas está escrevendo “Solta rojões” com a caneta vermelha e riscando o que escreveu com canetas azuis.
Como eu disse, só pra lembrar ou destacar. Já roubou algum material de escritório?
Heim? Como?
Perguntei se já roubou algum material de escritório.
Não! Nunca!
Já forjou doença e falsificou atestados para faltar ao trabalho?
O quê? Não!
Já assediou moralmente ou sexualmente alguma colega de trabalho?
Heim? Não! Jamais! Que perguntas são essas?
Muito obrigado Carlos! Já anotei o que precisava.
Posso saber o por que dessas perguntas?
Só pra ver se atenuava a gravidade de ser um soltador de rojões.
Ah! Espero que tenha atenuado bastante!
Na verdade não. Prefiro ter um ladrão assediador que mata trabalho do que um soltador de rojões. Mas como tu soltou só um ontem, um que não faz muito barulho, vamos analisar seu currículo e logo entraremos em contato.

O Entrevistador levantou-se e estendeu a mão, ao que Carlos o acompanhou e cumprimentou enquanto era direcionado à porta do escritório.

Tem uma previsão de quando irão me ligar?
Em breve.
Alguma data? Horário?
Nós ligaremos.
Se não ligarem, posso ligar para confirmar?
Pode tentar. Passar bem.

A porta fechou na cara de Carlos.
- O Entrevistador voltou à sua cadeira, sentou-se, pegou o currículo de Carlos e depositou-o, com o máximo de cuidado e delicadeza, no fragmentador de papel.