Eu não sou acostumado a dormir à tarde, simplesmente não consigo. Já devo ter algum problema pra dormir à noite, demorando quase uma hora ou mais para pegar no sono e me acordando dezenas de vezes durante a noite, alegrando-me toda vez que olho no relógio e vejo que ainda faltam quatro horas de sono, três, duas horas e meia, uma hora e quinze, meia hora… Mas de tarde, não consigo dormir. Simples assim.
Hoje, na volta do trabalho - estou vindo cedo do trabalho nestes dias por motivos administrativos da empresa que trabalho - comecei a sentir um cansaço, fraqueza, dores nas costas e na cabeça, como se estivesse gripado, mas sem os sintomas mais conhecidos da gripe como espirros, dores de garganta e ranho escorrendo do nariz. Contei isso para minha esposa e ela disse para eu me deitar e dormir um pouco, mas assim como eu falei pra vocês agora a pouco, eu disse pra ela que não estava afim e de qualquer maneira não iria conseguir dormir. Fiquei então trabalhando em alguns projetos pessoais.
Texto vai, vídeo vem, selecionando trilhas entre um gole e outro de chá e… Falta luz. Ok. Não posso trabalhar e não estou com vontade de ler. Vou me deitar um pouco.
Eram quatro da tarde e coloquei meu celular a despertar as cinco e meia. Deixei o botão da luz do quarto ligado para caso a luz voltasse, eu me levantaria e continuaria meu trabalho.
Deitei, e aos poucos meus gatos vieram deitar comigo - eles acostumaram a dormir conosco debaixo das cobertas ou sobre nossos pés. Ali fiquei, deitado, pensando na vida, nas coisas que eu deveria fazer, nas coisas que eu poderia fazer, e em qualquer outra coisa mais. Eram quatro e quarenta e cinco - aproximadamente - a luz voltou, iluminando o quarto todo e clareando meus olhos fechados. Me levantei para apagar a luz e olhei para a sala, fria, deserta, desconfortável. Olhei então para a cama, quentinha, com companhia, aconchegante. Voltei para a cama. Eu ainda tinha quase uma hora para dormir.
Deitado, volto a pensar na vida, no universo e em tudo mais, quando ouço o grito do vizinho do lado esquerdo da minha casa me chamando - ele é viciado em algumas drogas e não costumamos ajudar com dinheiro, as vezes só com alguma comida que sobra. Eu ignorei ele e me mantive deitado. Ele iria me chamar mais umas duas ou três vezes e iria embora. Eu não queria ter minha tentativa de sono interrompida. Ele chamou mais uma, outra, e mais outra vez, até que se calou. Ótimo! Eu poderia tentar dormir novamente, quando ouço passos pela brita no pátio frontal da minha casa. É meu vizinho do lado direito, que por acaso, também é meu sogro e temos um portãozinho entre nossos terrenos para facilmente ir pra lá e pra cá. Ele me chamou e eu tive que me levantar para atendê-lo, e ali, na rua, em frente ao meu portão, estava o meu vizinho viciado. Ele me oferece cortar os galhos de uma árvore que está no pátio dele e que ameaçava destelhar minha casa. É obrigação dele podar as árvores dele, mas como o conheço bem, ele queria dinheiro para usufruir da maneira que lhe conviesse. Eu sabia que ele não iria parar de incomodar com algum "trabalhinho" pra fazer em troca de dinheiro e aceitei que ele cortasse os galhos por três reais. Assim eu garanti que ele não me incomodasse por um tempo.
Meu sogro só me pediu um favor para eu fazer uma arte de um cartão. Me passou as informações, as imagens para usar na arte, e voltou para sua casa.
"Vou voltar para a cama" pensei eu, inocentemente, até que adentrei o quarto e meu celular tocava a Abertura de Guilherme Tell - aquela dos desenhos animados quando amanhece, sim, é meu despertador.
Moral da história:
Eu não gosto de dormir de tarde e normalmente não consigo. Quando me disponho a dormir, um pouco que seja, o universo conspira contra minha decisão. Acho que dormir à tarde ainda não é pra mim.
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