Estávamos aguentando a guerra. Poucas baixas, poucas perdas, mas não conseguíamos avançar. Estávamos estagnados, sem sair do lugar. Vencíamos algumas batalhas, e perdíamos outras, e assim foi durante alguns anos, até a mudança ordenada pelo governo, que colocou-nos sob a liderança de um novo General e novos investimentos em equipamentos e armamentos.
O General, nascido e criado em nosso país, mas reformado em outros países como um estrategista militar inovador, apresentou novas estratégias utilizadas em guerras nas outras nações. Eram ótimas estratégias, completamente diferentes das que estávamos habituados a utilizar aqui. Entretanto, alguns de nós acreditavam que não seriam completamente capazes de avançar sobre o inimigo, pois as suas estratégias eram completamente diferentes das previstas pelo novo General.
Assim iniciou-se uma nova fase da guerra, com os soldados animados e prontos para a batalha, seguindo todas as orientações do General e seus subalternos estrategistas e munidos de armamentos e equipamentos novos, que ajudaram muito nas primeiras novas conquistas. No início sofremos muitas perdas, mas conseguimos aos poucos avançar território. Contudo, o avanço não durou muito.
As estratégias que funcionariam com outras nações de outras culturas, não estavam funcionando aqui. Aqui, tudo era diferente, e o General não estava habituado aos nossos costumes de guerra. As perdas começaram a aumentar. Perdemos cada vez mais soldados, territórios e aliados, que preferiram abster-se dos conflitos. E começamos a perder os ânimos.
Rumores entre os soldados do front diziam que o General nunca foi um bom estrategista militar de nossa cultura, mas que somente havia conseguido ser nomeado como nosso general por ser amigo de infância do Presidente. Assim, a confiança cega do Presidente pelo General falou mais alto do que a verdadeira vontade de vencer a guerra. E assim, mesmo com as perdas cada vez maiores, o Presidente seguia confiando no General.
Os meses passavam, enquanto recuávamos e sobrevivíamos como podíamos, até que os conselheiros do Presidente o aconselharam a retirar o General do comando. Assim o Presidente deixou um de seus subalternos, o Genera Intendente, no comando da guerra, tentando negociar com o adversário algum acordo que pudesse iniciar um cessar fogo e assim dar-nos tempo de nos reestruturarmos.
Foram outros longos meses de angústia e anseio, enquanto recuávamos e perdíamos mais e mais territórios. Mesmo eu estando na retaguarda, relativamente a salvo das primeiras ondas de tiro das batalhas, vi companheiros meus caírem diante de mim. E assim seguia, nosso exército definhando enquanto os oficiais, sentados a salvo em suas poltronas acolchoadas no QG, longe de toda a sanguinolência, diziam-se ainda buscar meios de negociar o cessar fogo. Até que a primeira grande onda de ataques do inimigo chegou, como uma punhalada em nossas costas. Nossa linha de frente foi completamente aniquilada. Com um único e certeiro ataque do inimigo, nossa infantaria dianteira foi varrida do campo de batalha. Ainda assim, a guerra não acabou, entretanto sabíamos que ela estava próxima do fim.
Exatamente uma semana depois, um segundo ataque direto do inimigo varreu nosso exército do mapa. Nossos companheiros de uma hora para a outra deixaram de existir. Sobraram somente eu e outros quatro companheiros, resistindo na última trincheira, sob à supressão do adversário. Perdemos um dos sobreviventes e outros dois ficaram inconscientes. Eu e meu companheiro ainda resistimos bravamente, segurando o que pudermos o avanço do inimigo e pedindo, numa vaga esperança de ser atendido, os reforços necessários para nossa sobrevivência.
Duvido que sejamos atendidos. Esperamos aqui pacientemente o momento de morrermos, esquecidos por todos, sem o reconhecimento de nosso trabalho, pelo sangue e suor que demos ao nosso exército.
Perdemos, e feio! Mas de quem foi a culpa? Talvez seja desnecessário remoer tal assunto, já que não há mais nada que se possa fazer. Ainda assim é um passa-tempo enquanto esperamos pelo nosso fim. Foi o General? Aquele indicado pelo Presidente? Sua parca experiência estratégica foi a pá que cavou nossa sepultura. Mas talvez, como pá, o General tenha sido somente a ferramenta. Quem foi o coveiro? O governo? Sim, o governo, que manteve o General no comando mesmo depois de sucessivos erros.
Agora me pergunto, onde estão o Presidente e seus conselheiros neste momento em que eu e meus companheiros nos protegemos das balas e explosões? Certamente em suas casas, com suas famílias, aquecidos diante de suas lareiras e bebendo seus drinks importados. E onde está o General? Esse ouvi dizer que foi dispensado de seus serviços e agora está em sua mansão, em outro país, onde desfruta do dinheiro que lhe foi dado para liderar nosso exército. Para guiar a nós, míseros soldados rasos, para a morte certa. A vida de dezenas de pessoas mudadas para sempre pela incompetência daqueles que não só não tem nada a perder, como ganharam muito com o trabalho e o sacrifício dos outros.
Só me resta agora aguardar, no meio desta trincheira abandonada que um dia já esteve completamente ocupada por meus companheiros.
Só me resta aguardar...
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