quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

O Soltador de Rojões

- Bom dia Carlos!
- Bom dia.

Carlos sentou-se na cadeira para a entrevista de emprego. Seu entrevistador, diante dele, segurava seu currículo e fazia anotações.

Vi o seu currículo e achei bastante interessante. Muitas coisas para serem aproveitadas aqui na empresa.
Muito obrigado!
Quero saber um pouco mais de ti. É formado em administração com uma pós em economia né?
Exatamente. Fiz alguns cursos curtos também durante a faculdade.

O entrevistador fez algumas notas no currículo de Carlos.

Ótimo! Várias experiências. Vejo que fala inglês.
Fluente. Leitura, escrita e conversação.
Oh yes. Did your speak is good?
I think so.

Mais algumas notas foram feitas. Provavelmente coisas boas.

Tem conhecimentos de informática também né. Pode falar sobre isso?
Claro! Fiz curso de Office e tenho muita experiência com tabelas em Excel. Cálculos, fórmulas, gráficos.
Muito bom! Trabalhamos aqui um pouco com redes sociais também. Está familiarizado com elas?
Sou sim. Facebook, Twitter, Instagram, e algumas outras, mas principalmente essas.
Ótimo!

O Entrevistador era uma máquina de fazer anotações. O currículo de carlos estava cheio das letras e rabiscos azuis.

E rojões? Você solta?
Hã? Heim?
Rojões. Fogos de artifício. Solta?
Ah… Sim… Solto… De vez em quando.
Ahmm.

O Entrevistador baixou o currículo de Carlos sobre a mesa e olhou seriamente para seu entrevistado.

E com que frequência?
Ah... Bom… Natal, ano novo…
Gosta de futebol?
Sim… Gosto.
Tu torce para o Itambaguaiense?
Ahmm… Sim.
Viu o jogo ontem à noite?
Vi.

As axilas de Carlos já estavam inundadas e torcia para que o Entrevistador não visse as rodelas. O por enquanto ainda ajudava a esconder. Mas que porcarias de perguntas são essas?

Parabéns! O teu time ganhou. Sabe, eu também sou Itambaguaiense.
Que legal.

O susto foi diminuindo. Que história era aquela de rojões? O Entrevistador já estava sorridente.

Soltou rojões ontem?
Ahm… Sim.

E lá se foi o sorriso.

Hum. Quantos?
Um! Um só.
Um ainda assim é bastante barulhento.
Um pouco. Mas o meu não era tanto assim.
Mesmo assim ele explodiu né?
Sim.
Bom. Eu não soltei rojões.

O Entrevistador largou a caneta azul, abriu uma gaveta de sua escrivaninha e de lá puxou uma caneta vermelha. Agora os rabiscos vermelhos no currículo tomavam conta.

Ah… O que o senhor está escrevendo?
Só umas anotações. Algumas coisinhas pra eu lembrar ou destacar.
Mas está escrevendo “Solta rojões” com a caneta vermelha e riscando o que escreveu com canetas azuis.
Como eu disse, só pra lembrar ou destacar. Já roubou algum material de escritório?
Heim? Como?
Perguntei se já roubou algum material de escritório.
Não! Nunca!
Já forjou doença e falsificou atestados para faltar ao trabalho?
O quê? Não!
Já assediou moralmente ou sexualmente alguma colega de trabalho?
Heim? Não! Jamais! Que perguntas são essas?
Muito obrigado Carlos! Já anotei o que precisava.
Posso saber o por que dessas perguntas?
Só pra ver se atenuava a gravidade de ser um soltador de rojões.
Ah! Espero que tenha atenuado bastante!
Na verdade não. Prefiro ter um ladrão assediador que mata trabalho do que um soltador de rojões. Mas como tu soltou só um ontem, um que não faz muito barulho, vamos analisar seu currículo e logo entraremos em contato.

O Entrevistador levantou-se e estendeu a mão, ao que Carlos o acompanhou e cumprimentou enquanto era direcionado à porta do escritório.

Tem uma previsão de quando irão me ligar?
Em breve.
Alguma data? Horário?
Nós ligaremos.
Se não ligarem, posso ligar para confirmar?
Pode tentar. Passar bem.

A porta fechou na cara de Carlos.
- O Entrevistador voltou à sua cadeira, sentou-se, pegou o currículo de Carlos e depositou-o, com o máximo de cuidado e delicadeza, no fragmentador de papel.

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