- Bom dia Carlos!
- Bom dia.
Carlos sentou-se na cadeira para a entrevista de emprego. Seu entrevistador, diante dele, segurava seu currículo e fazia anotações.
- Vi o seu currículo e achei bastante interessante. Muitas coisas para serem aproveitadas aqui na empresa.
- Muito obrigado!
- Quero saber um pouco mais de ti. É formado em administração com uma pós em economia né?
- Exatamente. Fiz alguns cursos curtos também durante a faculdade.
O entrevistador fez algumas notas no currículo de Carlos.
- Ótimo! Várias experiências. Vejo que fala inglês.
- Fluente. Leitura, escrita e conversação.
- Oh yes. Did your speak is good?
- I think so.
Mais algumas notas foram feitas. Provavelmente coisas boas.
- Tem conhecimentos de informática também né. Pode falar sobre isso?
- Claro! Fiz curso de Office e tenho muita experiência com tabelas em Excel. Cálculos, fórmulas, gráficos.
- Muito bom! Trabalhamos aqui um pouco com redes sociais também. Está familiarizado com elas?
- Sou sim. Facebook, Twitter, Instagram, e algumas outras, mas principalmente essas.
- Ótimo!
O Entrevistador era uma máquina de fazer anotações. O currículo de carlos estava cheio das letras e rabiscos azuis.
- E rojões? Você solta?
- Hã? Heim?
- Rojões. Fogos de artifício. Solta?
- Ah… Sim… Solto… De vez em quando.
- Ahmm.
O Entrevistador baixou o currículo de Carlos sobre a mesa e olhou seriamente para seu entrevistado.
- E com que frequência?
- Ah... Bom… Natal, ano novo…
- Gosta de futebol?
- Sim… Gosto.
- Tu torce para o Itambaguaiense?
- Ahmm… Sim.
- Viu o jogo ontem à noite?
- Vi.
As axilas de Carlos já estavam inundadas e torcia para que o Entrevistador não visse as rodelas. O por enquanto ainda ajudava a esconder. Mas que porcarias de perguntas são essas?
- Parabéns! O teu time ganhou. Sabe, eu também sou Itambaguaiense.
- Que legal.
O susto foi diminuindo. Que história era aquela de rojões? O Entrevistador já estava sorridente.
- Soltou rojões ontem?
- Ahm… Sim.
E lá se foi o sorriso.
- Hum. Quantos?
- Um! Um só.
- Um ainda assim é bastante barulhento.
- Um pouco. Mas o meu não era tanto assim.
- Mesmo assim ele explodiu né?
- Sim.
- Bom. Eu não soltei rojões.
O Entrevistador largou a caneta azul, abriu uma gaveta de sua escrivaninha e de lá puxou uma caneta vermelha. Agora os rabiscos vermelhos no currículo tomavam conta.
- Ah… O que o senhor está escrevendo?
- Só umas anotações. Algumas coisinhas pra eu lembrar ou destacar.
- Mas está escrevendo “Solta rojões” com a caneta vermelha e riscando o que escreveu com canetas azuis.
- Como eu disse, só pra lembrar ou destacar. Já roubou algum material de escritório?
- Heim? Como?
- Perguntei se já roubou algum material de escritório.
- Não! Nunca!
- Já forjou doença e falsificou atestados para faltar ao trabalho?
- O quê? Não!
- Já assediou moralmente ou sexualmente alguma colega de trabalho?
- Heim? Não! Jamais! Que perguntas são essas?
- Muito obrigado Carlos! Já anotei o que precisava.
- Posso saber o por que dessas perguntas?
- Só pra ver se atenuava a gravidade de ser um soltador de rojões.
- Ah! Espero que tenha atenuado bastante!
- Na verdade não. Prefiro ter um ladrão assediador que mata trabalho do que um soltador de rojões. Mas - como tu soltou só um ontem, um que não faz muito barulho, vamos analisar seu currículo e logo entraremos em contato.
O Entrevistador levantou-se e estendeu a mão, ao que Carlos o acompanhou e cumprimentou enquanto era direcionado à porta do escritório.
- Tem uma previsão de quando irão me ligar?
- Em breve.
- Alguma data? Horário?
- Nós ligaremos.
- Se não ligarem, posso ligar para confirmar?
- Pode tentar. Passar bem.
A porta fechou na cara de Carlos.
- O Entrevistador voltou à sua cadeira, sentou-se, pegou o currículo de Carlos e depositou-o, com o máximo de cuidado e delicadeza, no fragmentador de papel.
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