segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Grêmio Estudantil

A escola que estudei durante o ensino médio era pública, estadual com cursos técnicos muito bem conceituada na cidade que moro. Ela continua sendo pública, estadual e com cursos técnicos, mas talvez já não seja mais tão bem conceituada assim.
Eu me lembro, na minha época, dos períodos de greve dos professores. Às vezes o professor dos primeiros períodos estava de greve e precisávamos esperar pela aula do próximo professor que não estava fazendo parte da paralização. Ficávamos na quadra jogando basquete ou bebendo café no bar. Se os professores dos últimos períodos não apareciam para dar aula, éramos liberados mais cedo e passávamos o resto da tarde numa praça próxima bebendo refrigerante e comendo bolos comprados em um mercado próximo dali. Os motivos das greves na época são os mesmos de hoje e desnecessários descrevê-los aqui. O que contarei nestes breves parágrafos é a participação do Grêmio Estudantil eleito em um dos anos em que estudei nesta escola - o qual também fiz parte.
Muitos alunos veteranos eram bastante conhecidos pelo resto dos alunos, professores e funcionários da escola. Eles normalmente andavam em grupos seletos, nas suas “panelinhas”, e aceitavam “novos integrantes” se estes lhes correspondessem a algum interesse. Foi num respectivo ano, quando decisões administrativas voltadas para práticas extracurriculares de cultura, esporte e lazer dos alunos - que eram organizadas pelo grêmio estudantil da atual gestão - estavam muito fracas e quase inexistentes. Aconteceram então as “corridas eleitorais” das duas chapas existentes, ambas compostas por alunos veteranos de baixa popularidade e aceitação por parte dos alunos da escola.
Faixas eram penduradas, placas eram expostas, santinhos eram distribuídos, contendo os números das chapas e suas propostas para sua gestão. Nenhuma delas agradava plenamente os alunos. Os presidentes e principais secretários faziam turnês pelas classes, atrapalhando as aulas dos professores às vezes até pelo seu período inteiro. Debates eram realizados e bocas de urna incomodavam até o mais indiferente aluno. Os integrantes das chapas faziam de tudo para conseguir os votos dos alunos, visto que o voto ali era obrigatório - talvez mais uma tentativa da diretoria mostrar como é o mundo real fora dos portões da escola.
Chegado o dia de eleição. As urnas abrem logo depois do sinal do início do intervalo matutino. Alguns alunos aproveitam o intervalo para votar, outros pedem para os professores para irem rapidamente às urnas ou utilizam a troca de períodos para darem seus votos. Eu lembro que votei no horário entre os turnos da manhã e tarde - pois eu estudava no curso técnico pela manhã e ensino médio à tarde. As urnas fecharam no toque de término do intervalo do turno noturno e os votos foram contados no decorrer do dia seguinte.
Exerci minha cidadania em poder escolher o meu representante no grêmio estudantil e votei NULO. Sim, nulo. Nenhuma das chapas me representava. Eu conhecia muitos integrantes das duas chapas e sabia que eles fariam muito pouco ou nada em seus cargos. E acredito que muitos alunos assim também pensaram. Dos pouco mais de dois mil alunos, cerca de mil e quinhentos votos foram contados, uma abstenção de cerca de 25%. Dos que votaram, mais da metade anulou seu voto e ambas as chapas ficaram com menos de 20% de votos. Naquela escola, ao menos na época, quando mais da metade dos votos são anulados - visto que tivemos também grande parte de abstenções também - deve ser feita uma nova eleição, com chapas novas ou modificações de integrantes das chapas que haviam concorrido. Foi aí que um grande amigo meu me convidou para fazer parte da chapa que ele estava montando, para rivalizar com as duas outras que haviam concorrido e não foram aceitas pelos alunos. No início fiquei reticente, mas após ele me explicar suas ideias e propostas, aceitei, mas mais por conhecer muito bem esse amigo e saber que ele, na posição de presidente da chapa, faria de tudo para realizar o máximo possível de suas propostas.
Começamos então nossa campanha. Não gastamos dinheiro em gráficas para fazermos nossos cartazes, faixas ou santinhos, produzindo eles manualmente, um a um, por um pequeno grupo de integrantes da chapa que eu consideraria nada menos que artistas. Acompanhei meu amigo presidente em reuniões com grêmios estudantis de outras duas escolas próximas, na busca de apoio caso fôssemos eleitos. Debates foram feitos, com vitórias esmagadoras do meu presidente, cujo conhecimento em diversas áreas, sejam políticas, humanas ou exatas, até hoje me admiram.
A nova eleição foi feita, um mês após a anterior. As urnas foram abertas, alunos votaram, as urnas foram fechadas, os votos foram contados e o resultado foi dado. Nossa chapa foi eleita com a grande maioria de votos, inclusive de alunos que se abstiveram.
Lembro que foi um ano muito interessante para mim. Aprendi um pouco mais sobre organização, responsabilidade e a preparar miojo em fogareiro - desculpem o devaneio, mas isso é verdade. Eu, como integrante da Secretaria de Cultura, tentei fazer o festival de bandas da escola, mas não consegui, assim como diversas propostas de nossa chapa que não puderam ser realizadas. Conseguimos, ao menos, concluir alguns projetos importantes e terminamos nossa gestão com saldo positivo em caixa, ao contrário das outras gestões que sempre entregavam o grêmio endividado.
Não fomos uma grande gestão, mas talvez um pouco melhor do que as outras duas poderiam ter sido para os alunos. Tenho ótimas lembranças daquela época, algo que levarei para sempre na minha memória. Isso é algo também que todos devemos nos lembrar, para levarmos para nossas vidas, para nossos governos. Devemos sempre nos lembrar o quão é importante a cidadania e fazer valer nossos direitos fazendo usufruto de nossos deveres.


Ps.: Algumas partes desta narrativa são ficcionais. Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.
Ps 2.: O meu amigo, presidente de nossa chapa, é um personagem real. Tudo que falei sobre ele é verdade e hoje ele faz seu doutorado em “Alguma-Coisa Mecânica” na Áustria.
Ps 3.: Um ótimo console.

Ps 4.: Ainda terei.

Lugar Inverso

Acho muito bonito o pôr do sol no lago à beira da cidade. Mesmo com a sujeira, violência, bandidos, acidentes, brigas, altos impostos, roubos de merendas, assaltos à escolas, corrupções, escândalos sexuais, programas de violência sensacionalistas de televisão, dentre outras coisas, muitas pessoas ainda gostam de aproveitar seus finais de tarde à beira do lago, com amigos e familiares, conversando e se divertindo, enquanto observam o sol se pôr, num degradê alaranjado que envolve o céu ocidental da cidade.
Gosto de observar o ondular das águas, mesmo elas sendo marrons, com cheiro desagradável, espumas de origem duvidosa trazidas pelas pequenas ondas ou levando, em sua correnteza, objetos de aparência desagradável que boiam sem rumo até afundarem, se decomporem ou encalharem na costa. O movimento que a água faz, turvando e distorcendo o reflexo das margens do outro lado do lago e do sol ainda descendo no horizonte, é uma imagem tranquilizadora, que faz-me esquecer os problemas e desventuras do cotidiano.
Diversas vezes observei pessoas, normalmente moradores de rua, banharem-se nestas águas impróprias para banho, refrescando-se de calores quase insuportáveis, divertindo-se espirrando água uns nos outros, sem medo de contraírem hepatite, leptospirose ou cólera. Certamente elas não fazem a mínima ideia do que quer dizer cada uma dessas palavras, simplificando em “alguma doença dessas aí”.
Certa vez imaginei se poderia acontecer de eu mergulhar nestas águas e, ao invés de ficar submerso, eu emergiria do outro lado, em um lago de águas cristalinas, insípidas e inodoras, que costeiam uma cidade limpa, segura, que compõem um lugar com altos níveis de educação, saúde e emprego, onde todas as pessoas são honestas e trabalhadoras, e os programas de televisão são educativos e instrutivos. Um lugar inverso ao que eu vivo.
E se nesse lugar inverso vivessem as mesmas pessoas que vivem aqui? E se existisse uma versão minha neste lugar inverso? Se eu mergulhasse aqui e saísse no Lugar Inverso, o meu eu do Lugar Inverso mergulharia nas águas cristalinas e emergiria nas águas marrons fedidas daqui? Seria uma troca justa?

Bom. Prefiro ficar onde estou e não sacanear meu outro eu, forçando-o a viver aqui, neste lugar que já estou acostumado. Prefiro então só ficar sonhando, pois é o que nos resta fazer.

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Dormir

Eu não sou acostumado a dormir à tarde, simplesmente não consigo. Já devo ter algum problema pra dormir à noite, demorando quase uma hora ou mais para pegar no sono e me acordando dezenas de vezes durante a noite, alegrando-me toda vez que olho no relógio e vejo que ainda faltam quatro horas de sono, três, duas horas e meia, uma hora e quinze, meia hora… Mas de tarde, não consigo dormir. Simples assim.
Hoje, na volta do trabalho - estou vindo cedo do trabalho nestes dias por motivos administrativos da empresa que trabalho - comecei a sentir um cansaço, fraqueza, dores nas costas e na cabeça, como se estivesse gripado, mas sem os sintomas mais conhecidos da gripe como espirros, dores de garganta e ranho escorrendo do nariz. Contei isso para minha esposa e ela disse para eu me deitar e dormir um pouco, mas assim como eu falei pra vocês agora a pouco, eu disse pra ela que não estava afim e de qualquer maneira não iria conseguir dormir. Fiquei então trabalhando em alguns projetos pessoais.
Texto vai, vídeo vem, selecionando trilhas entre um gole e outro de chá e… Falta luz. Ok. Não posso trabalhar e não estou com vontade de ler. Vou me deitar um pouco.
Eram quatro da tarde e coloquei meu celular a despertar as cinco e meia. Deixei o botão da luz do quarto ligado para caso a luz voltasse, eu me levantaria e continuaria meu trabalho.
Deitei, e aos poucos meus gatos vieram deitar comigo - eles acostumaram a dormir conosco debaixo das cobertas ou sobre nossos pés. Ali fiquei, deitado, pensando na vida, nas coisas que eu deveria fazer, nas coisas que eu poderia fazer, e em qualquer outra coisa mais. Eram quatro e quarenta e cinco - aproximadamente - a luz voltou, iluminando o quarto todo e clareando meus olhos fechados. Me levantei para apagar a luz e olhei para a sala, fria, deserta, desconfortável. Olhei então para a cama, quentinha, com companhia, aconchegante. Voltei para a cama. Eu ainda tinha quase uma hora para dormir.
Deitado, volto a pensar na vida, no universo e em tudo mais, quando ouço o grito do vizinho do lado esquerdo da minha casa me chamando - ele é viciado em algumas drogas e não costumamos ajudar com dinheiro, as vezes só com alguma comida que sobra. Eu ignorei ele e me mantive deitado. Ele iria me chamar mais umas duas ou três vezes e iria embora. Eu não queria ter minha tentativa de sono interrompida. Ele chamou mais uma, outra, e mais outra vez, até que se calou. Ótimo! Eu poderia tentar dormir novamente, quando ouço passos pela brita no pátio frontal da minha casa. É meu vizinho do lado direito, que por acaso, também é meu sogro e temos um portãozinho entre nossos terrenos para facilmente ir pra lá e pra cá. Ele me chamou e eu tive que me levantar para atendê-lo, e ali, na rua, em frente ao meu portão, estava o meu vizinho viciado. Ele me oferece cortar os galhos de uma árvore que está no pátio dele e que ameaçava destelhar minha casa. É obrigação dele podar as árvores dele, mas como o conheço bem, ele queria dinheiro para usufruir da maneira que lhe conviesse. Eu sabia que ele não iria parar de incomodar com algum "trabalhinho" pra fazer em troca de dinheiro e aceitei que ele cortasse os galhos por três reais. Assim eu garanti que ele não me incomodasse por um tempo.
Meu sogro só me pediu um favor para eu fazer uma arte de um cartão. Me passou as informações, as imagens para usar na arte, e voltou para sua casa.
"Vou voltar para a cama" pensei eu, inocentemente, até que adentrei o quarto e meu celular tocava a Abertura de Guilherme Tell - aquela dos desenhos animados quando amanhece, sim, é meu despertador.

Moral da história:

Eu não gosto de dormir de tarde e normalmente não consigo. Quando me disponho a dormir, um pouco que seja, o universo conspira contra minha decisão. Acho que dormir à tarde ainda não é pra mim.

terça-feira, 25 de outubro de 2016

Bicho de Estimação

Eu tenho um gato e ele me faz uma ótima companhia.
Nunca pensei que eu fosse ter algum animal de estimação. Me disseram que hamsters precisam de gaiola e que temos que limpá-la quase todos os dias. As aves hoje são proibidas. Peixes? Limpar aquários é um saco. E cachorros? Meus amigos disseram que devo ensinar ele a fazer xixi e cocô no jornal, ou na rua, e devo passear com ele ao menos duas vezes por dia, e eles latem, e tem um cheiro distinto (pra não dizer fedor). Não. Me disseram que gatos são tranquilos e amáveis, tirando as partes em que precisamos dar banho, limpar a caixa de areia ou ignorarmos quando eles começam a fazer suas maluquices de gato, mas eu achava que conseguia fazer isso. E consegui.
Kiko é um viralatinha que adotei com menos de um mês e virou meu companheiro de casa. Ele come, caga, dorme (normalmente em cima de mim, seja eu estando sentado no sofá ou deitado na cama), e frequentemente me pede carinho, ronronando enquanto esfrega sua cabeça em minha mão.
Tenho bastante cuidado com ele dentro de casa, colocando comida três vezes ao dia, pela manhã cedo, cedo da tarde e à noite quando vou dormir.
Ele gosta de sair de casa, passando horas ou até mesmo a noite inteira na rua, me acordando aos miados de madrugada ou de manhã cedo pedindo para entrar.
Acredito que Kiko tenha feito alguns amigos na rua, pois ouço miados e às vezes vejo os outros gatos por perto, como se chamassem Kiko para sair e brincar, mas ultimamente só tenho ouvido os miados e os barulhos dos gatos lá fora entrando e saindo das latas de lixo e revirando coisas no chão.
Acho que algum desses gatos pode ter tentado machucar Kiko, pois notei uma pequena casca de cicatriz nas suas costas, em meio aos seus volumosos pelos rajados. Desde então não tenho deixado ele sair, e mesmo assim ele não mostra muita vontade em ir pra rua, preferindo ficar em casa, comendo, cagando e dormindo em cima dos meus pés na cama, sempre por cima das cobertas.
Quando coloco comida para Kiko à noite, ele espera eu deitar para comer e depois sobe nas minhas pernas sobre a cama, fica lá deitado até a manhã seguinte, e eu sem poder me mover para não acordá-lo.
Gosto de ouvir o característico som da tijela de plástico arrastando pelo chão e dando leves batidas na parede, enquanto ouço os sons secos da ração sendo quebrada pelos dentes afiados de Kiko, sempre pouco antes de sentir seu peso sobre minhas pernas.
É normal, nessas noites mais movimentadas, eu acordar assustado com o som de algo caindo e perceber que é lá fora, e vejo Kiko sentado ao lado dos meus pés olhando para a janela, rosnando para o maldito gato brigão da rua.
Entretanto, ontem à noite, ocorreu um fato estranho. Como de praxe, servi a quantidade normal de ração no pote de Kiko, apaguei as luzes e fui me deitar. Logo senti ele subindo na cama, com seus pelos roçando em minhas pernas. Kiko permaneceu debaixo das cobertas, algo que ele nunca tinha feito antes, mas estava um pouco frio essa noite e certamente ele queria se aquecer. Mas isso não era o fato estranho. Estranho foi quando, uns minutos depois, quando eu estava prestes a adormecer, ouvi o característico e agradável som do plástico arrastando no chão e batendo levemente na parede, enquanto seguiam os sons secos da ração sendo quebrada por dentes afiados. Foi aí que percebi que o leve rosnar de Kiko reverberava debaixo das cobertas, enquanto eu sentia seus pelos em minhas pernas. Kiko estava comigo no meu quarto, e o pote com a ração fica na sala.

Hoje vou vistoriar e vedar todas as aberturas de casa.

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Chuva

- Mãe! Posso brincar lá fora?

- Não filho. Está chovendo muito.
- Mas está calor, e é só água.
- Você vai sujar toda a tua roupa, ficar molhado e pegar uma gripe! Fica aqui dentro!
E lá foi João pra frente da televisão.

Minha babá foi a televisão. Morei em apartamento praticamente toda a minha vida e muito do que fiz foi ficar na frente da televisão sem prestar muita atenção com o mundo lá fora, e o tempo passando, e os dias de sol e de chuva fazendo seu trabalho, sendo dias ensolarados, nebulosos ou chuvosos.

Perdi minha infância na frente da televisão? De modo algum! Muito aprendi com ela, mas muito deixei de aprender em não ir pra rua, debaixo da chuva, sujando a roupa e pegando ao menos alguns sintomas de resfriado. Dia quente combina com água pra refrescar, e algumas vezes fiz isso na minha infância, sem me preocupar com a roupa molhada, ou com a sujeira do chão da rua. Depois de adultos, passamos a nos preocupar mais com as coisas. As contas, a comida na geladeira, bater o ponto no trabalho, a limpeza da casa, colocar roupas pra lavar, todas preocupações importantes do dia a dia do adulto.
Nós reclamamos da chuva durante a semana quando precisamos sair de casa para trabalhar. Reclamamos da chuva nos finais de semana quando queremos sair para aproveitar a folga. Se chove durante a semana, chegamos no trabalho molhados, ficamos o dia inteiro molhados, voltamos para a casa molhados e em casa tomamos banho para nos limpar, relaxar e ficarmos aquecidos do frio da chuva lá fora. Se chove final de semana, ficamos em casa assistindo televisão, na internet. A mesma coisa que fazemos durante a semana quando voltamos do trabalho.
João faz isso todos os dias quando fica sozinho em casa depois da aula e não pode sair até seus pais chegarem. Mas eles chegam de noite e já não há mais nada para fazer a noite na rua. Tudo o que ele quer agora é fugir de dentro de casa, fugir da televisão, da internet, da mesmce, e se molhar na chuva, pular nas poças, jogar água para cima, talvez até escorregar no chão se tiver água o suficiente.
A mãe de João pensou nisso tudo em menos de um segundo.
- João…
- Sim mãe?
- Coloca aquela bermuda velha e a regata rasgada e pode ir pra rua. Só me avisa quando for entrar pra eu te esperar com uma toalha pra não molhar todo o chão que acabei de limpar.
Eba!
E lá vai João, já tirando a camiseta para se trocar.
É bom João aproveitar pois em alguns anos ele também vai reclamar da chuva.

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Só Me Resta Aguardar

Estávamos aguentando a guerra. Poucas baixas, poucas perdas, mas não conseguíamos avançar. Estávamos estagnados, sem sair do lugar. Vencíamos algumas batalhas, e perdíamos outras, e assim foi durante alguns anos, até a mudança ordenada pelo governo, que colocou-nos sob a liderança de um novo General e novos investimentos em equipamentos e armamentos.
O General, nascido e criado em nosso país, mas reformado em outros países como um estrategista militar inovador, apresentou novas estratégias utilizadas em guerras nas outras nações. Eram ótimas estratégias, completamente diferentes das que estávamos habituados a utilizar aqui. Entretanto, alguns de nós acreditavam que não seriam completamente capazes de avançar sobre o inimigo, pois as suas estratégias eram completamente diferentes das previstas pelo novo General.
Assim iniciou-se uma nova fase da guerra, com os soldados animados e prontos para a batalha, seguindo todas as orientações do General e seus subalternos estrategistas e munidos de armamentos e equipamentos novos, que ajudaram muito nas primeiras novas conquistas. No início sofremos muitas perdas, mas conseguimos aos poucos avançar território. Contudo, o avanço não durou muito.
As estratégias que funcionariam com outras nações de outras culturas, não estavam funcionando aqui. Aqui, tudo era diferente, e o General não estava habituado aos nossos costumes de guerra. As perdas começaram a aumentar. Perdemos cada vez mais soldados, territórios e aliados, que preferiram abster-se dos conflitos. E começamos a perder os ânimos.
Rumores entre os soldados do front diziam que o General nunca foi um bom estrategista militar de nossa cultura, mas que somente havia conseguido ser nomeado como nosso general por ser amigo de infância do Presidente. Assim, a confiança cega do Presidente pelo General falou mais alto do que a verdadeira vontade de vencer a guerra. E assim, mesmo com as perdas cada vez maiores, o Presidente seguia confiando no General.
Os meses passavam, enquanto recuávamos e sobrevivíamos como podíamos, até que os conselheiros do Presidente o aconselharam a retirar o General do comando. Assim o Presidente deixou um de seus subalternos, o Genera Intendente, no comando da guerra, tentando negociar com o adversário algum acordo que pudesse iniciar um cessar fogo e assim dar-nos tempo de nos reestruturarmos.
Foram outros longos meses de angústia e anseio, enquanto recuávamos e perdíamos mais e mais territórios. Mesmo eu estando na retaguarda, relativamente a salvo das primeiras ondas de tiro das batalhas, vi companheiros meus caírem diante de mim. E assim seguia, nosso exército definhando enquanto os oficiais, sentados a salvo em suas poltronas acolchoadas no QG, longe de toda a sanguinolência, diziam-se ainda buscar meios de negociar o cessar fogo. Até que a primeira grande onda de ataques do inimigo chegou, como uma punhalada em nossas costas. Nossa linha de frente foi completamente aniquilada. Com um único e certeiro ataque do inimigo, nossa infantaria dianteira foi varrida do campo de batalha. Ainda assim, a guerra não acabou, entretanto sabíamos que ela estava próxima do fim.
Exatamente uma semana depois, um segundo ataque direto do inimigo varreu nosso exército do mapa. Nossos companheiros de uma hora para a outra deixaram de existir. Sobraram somente eu e outros quatro companheiros, resistindo na última trincheira, sob à supressão do adversário. Perdemos um dos sobreviventes e outros dois ficaram inconscientes. Eu e meu companheiro ainda resistimos bravamente, segurando o que pudermos o avanço do inimigo e pedindo, numa vaga esperança de ser atendido, os reforços necessários para nossa sobrevivência.
Duvido que sejamos atendidos. Esperamos aqui pacientemente o momento de morrermos, esquecidos por todos, sem o reconhecimento de nosso trabalho, pelo sangue e suor que demos ao nosso exército.
Perdemos, e feio! Mas de quem foi a culpa? Talvez seja desnecessário remoer tal assunto, já que não há mais nada que se possa fazer. Ainda assim é um passa-tempo enquanto esperamos pelo nosso fim. Foi o General? Aquele indicado pelo Presidente? Sua parca experiência estratégica foi a pá que cavou nossa sepultura. Mas talvez, como pá, o General tenha sido somente a ferramenta. Quem foi o coveiro? O governo? Sim, o governo, que manteve o General no comando mesmo depois de sucessivos erros.
Agora me pergunto, onde estão o Presidente e seus conselheiros neste momento em que eu e meus companheiros nos protegemos das balas e explosões? Certamente em suas casas, com suas famílias, aquecidos diante de suas lareiras e bebendo seus drinks importados. E onde está o General? Esse ouvi dizer que foi dispensado de seus serviços e agora está em sua mansão, em outro país, onde desfruta do dinheiro que lhe foi dado para liderar nosso exército. Para guiar a nós, míseros soldados rasos, para a morte certa. A vida de dezenas de pessoas mudadas para sempre pela incompetência daqueles que não só não tem nada a perder, como ganharam muito com o trabalho e o sacrifício dos outros.
Só me resta agora aguardar, no meio desta trincheira abandonada que um dia já esteve completamente ocupada por meus companheiros.

Só me resta aguardar...