A escola que estudei durante o ensino médio era pública, estadual com cursos técnicos muito bem conceituada na cidade que moro. Ela continua sendo pública, estadual e com cursos técnicos, mas talvez já não seja mais tão bem conceituada assim.
Eu me lembro, na minha época, dos períodos de greve dos professores. Às vezes o professor dos primeiros períodos estava de greve e precisávamos esperar pela aula do próximo professor que não estava fazendo parte da paralização. Ficávamos na quadra jogando basquete ou bebendo café no bar. Se os professores dos últimos períodos não apareciam para dar aula, éramos liberados mais cedo e passávamos o resto da tarde numa praça próxima bebendo refrigerante e comendo bolos comprados em um mercado próximo dali. Os motivos das greves na época são os mesmos de hoje e desnecessários descrevê-los aqui. O que contarei nestes breves parágrafos é a participação do Grêmio Estudantil eleito em um dos anos em que estudei nesta escola - o qual também fiz parte.
Muitos alunos veteranos eram bastante conhecidos pelo resto dos alunos, professores e funcionários da escola. Eles normalmente andavam em grupos seletos, nas suas “panelinhas”, e aceitavam “novos integrantes” se estes lhes correspondessem a algum interesse. Foi num respectivo ano, quando decisões administrativas voltadas para práticas extracurriculares de cultura, esporte e lazer dos alunos - que eram organizadas pelo grêmio estudantil da atual gestão - estavam muito fracas e quase inexistentes. Aconteceram então as “corridas eleitorais” das duas chapas existentes, ambas compostas por alunos veteranos de baixa popularidade e aceitação por parte dos alunos da escola.
Faixas eram penduradas, placas eram expostas, santinhos eram distribuídos, contendo os números das chapas e suas propostas para sua gestão. Nenhuma delas agradava plenamente os alunos. Os presidentes e principais secretários faziam turnês pelas classes, atrapalhando as aulas dos professores às vezes até pelo seu período inteiro. Debates eram realizados e bocas de urna incomodavam até o mais indiferente aluno. Os integrantes das chapas faziam de tudo para conseguir os votos dos alunos, visto que o voto ali era obrigatório - talvez mais uma tentativa da diretoria mostrar como é o mundo real fora dos portões da escola.
Chegado o dia de eleição. As urnas abrem logo depois do sinal do início do intervalo matutino. Alguns alunos aproveitam o intervalo para votar, outros pedem para os professores para irem rapidamente às urnas ou utilizam a troca de períodos para darem seus votos. Eu lembro que votei no horário entre os turnos da manhã e tarde - pois eu estudava no curso técnico pela manhã e ensino médio à tarde. As urnas fecharam no toque de término do intervalo do turno noturno e os votos foram contados no decorrer do dia seguinte.
Exerci minha cidadania em poder escolher o meu representante no grêmio estudantil e votei NULO. Sim, nulo. Nenhuma das chapas me representava. Eu conhecia muitos integrantes das duas chapas e sabia que eles fariam muito pouco ou nada em seus cargos. E acredito que muitos alunos assim também pensaram. Dos pouco mais de dois mil alunos, cerca de mil e quinhentos votos foram contados, uma abstenção de cerca de 25%. Dos que votaram, mais da metade anulou seu voto e ambas as chapas ficaram com menos de 20% de votos. Naquela escola, ao menos na época, quando mais da metade dos votos são anulados - visto que tivemos também grande parte de abstenções também - deve ser feita uma nova eleição, com chapas novas ou modificações de integrantes das chapas que haviam concorrido. Foi aí que um grande amigo meu me convidou para fazer parte da chapa que ele estava montando, para rivalizar com as duas outras que haviam concorrido e não foram aceitas pelos alunos. No início fiquei reticente, mas após ele me explicar suas ideias e propostas, aceitei, mas mais por conhecer muito bem esse amigo e saber que ele, na posição de presidente da chapa, faria de tudo para realizar o máximo possível de suas propostas.
Começamos então nossa campanha. Não gastamos dinheiro em gráficas para fazermos nossos cartazes, faixas ou santinhos, produzindo eles manualmente, um a um, por um pequeno grupo de integrantes da chapa que eu consideraria nada menos que artistas. Acompanhei meu amigo presidente em reuniões com grêmios estudantis de outras duas escolas próximas, na busca de apoio caso fôssemos eleitos. Debates foram feitos, com vitórias esmagadoras do meu presidente, cujo conhecimento em diversas áreas, sejam políticas, humanas ou exatas, até hoje me admiram.
A nova eleição foi feita, um mês após a anterior. As urnas foram abertas, alunos votaram, as urnas foram fechadas, os votos foram contados e o resultado foi dado. Nossa chapa foi eleita com a grande maioria de votos, inclusive de alunos que se abstiveram.
Lembro que foi um ano muito interessante para mim. Aprendi um pouco mais sobre organização, responsabilidade e a preparar miojo em fogareiro - desculpem o devaneio, mas isso é verdade. Eu, como integrante da Secretaria de Cultura, tentei fazer o festival de bandas da escola, mas não consegui, assim como diversas propostas de nossa chapa que não puderam ser realizadas. Conseguimos, ao menos, concluir alguns projetos importantes e terminamos nossa gestão com saldo positivo em caixa, ao contrário das outras gestões que sempre entregavam o grêmio endividado.
Não fomos uma grande gestão, mas talvez um pouco melhor do que as outras duas poderiam ter sido para os alunos. Tenho ótimas lembranças daquela época, algo que levarei para sempre na minha memória. Isso é algo também que todos devemos nos lembrar, para levarmos para nossas vidas, para nossos governos. Devemos sempre nos lembrar o quão é importante a cidadania e fazer valer nossos direitos fazendo usufruto de nossos deveres.
Ps.: Algumas partes desta narrativa são ficcionais. Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.
Ps 2.: O meu amigo, presidente de nossa chapa, é um personagem real. Tudo que falei sobre ele é verdade e hoje ele faz seu doutorado em “Alguma-Coisa Mecânica” na Áustria.
Ps 3.: Um ótimo console.
Ps 4.: Ainda terei.
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