sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Pipoca do João

Na carrocinha estava escrito "Pipoca do João", mas o verdadeiro nome do pipoqueiro era Carlos. Disso, talvez ninguém soubesse e provavelmente ninguém se importava.

"Quanto é a pipoca?" - perguntou uma senhora soltando a mão da filha pequena que havia pedido que ela comprasse. A indiferença da mulher pelo pipoqueiro ou pela pipoca era tão grande que, mesmo com um cartaz afixado na lateral da carrocinha com os três valores de três, cinco e oito reais pelos respectivos tamanhos dos pacotes, ela ainda assim perguntou, enquanto usava a mão recém liberta da mão da pequena menina para pegar o dinheiro dentro de sua carteira.

"A pequena é três, a média é cinco e a grande é oito reais, senhora" - respondeu Carlos, cordialmente.
"Mãe! Tô com sede!"
"E quanto é o refri?"
O cartaz também estava escrito "3 reais a água e 4 reais o refrigerante"
"Quatro reais, senhora"
"Que sabor tu quer?"
"Doce"
"Uma grande doce e uma Coca"
"Pois não, senhora"

E agilmente, Carlos serve a pipoca doce no pacote grande, pega a garrafinha de Coca dentro do isopor, imersa em água gelada, dividindo espaço com pedras de gelo parcialmente derretidas, outras grarrafas e latas de refrigerante e água. Ele entrega sua mercadoria nas mãos da freguesa.

"Quanto é tudo?"

Um breve pensamento de milésimos de segundo que, enquanto passavam pela cabeça de Carlos por um período longuíssimo, mostrava que ele conseguia conter muito bem sua impaciência e externava somente cordialidade aos seus fregueses, dizia que aquela mulher era uma estúpida, preguiçosa e extremamente relapsa quanto aos cuidados da filha. Ele viu a menina chorando enquanto caminhavam em sua direção. Não até ele, mas para passar pela sua frente. Entre lágrimas saindo dos olhos e ranho saindo do nariz e ameaçando entrar em sua boca, a menina, bem arrumada com um lindo vestido vermelho de bolinhas brancas, puxava a mão de sua mãe, que logo recebia uma resposta com um puxão mais forte, capaz de erguê-la e derrubá-la no chão, além de gritos contidos de sua progenitora como "Fica quieta!" ou "Para de chorar!". O choro só diminuiu quando a menina viu a carrocinha de pipocas e despertou seu apetite por guloseimas. Sabendo que, naquele momento, a única coisa que faria a pobre criança parar de chorar, era comprar seu silêncio com tal iguaria das ruas do centro da cidade, não se importou nem um pouco em lhe dar o lanche, desde que ela ficasse quieta. Sem tentar acalmar a menina para que parasse de chorar e não precisar lhe comprar com agrados alimentícios, sua estupidez foi também dirigida para qualquer um à sua volta que fosse envolvida em sua vida neste breve momento, que nesse caso era Carlos. Sem ao menos olhar para o rosto de Carlos ou, muito menos, para os cartazes com letras e números garrafais descrevendo os valores de seus produtos, a mãe manteve-se de cara fechada, olhando para dentro da carteira e pegando as pequenas notas trocadas para pagar o pipoqueiro pela pipoca de oito reais e a coca de quatro.

"Doze" - respondeu Carlos, no exato instante em que a mulher lhe dirigiu a pergunta sem ao menos erguer os olhos e olhar para seu atendente.

Ela pegou uma nota de dez, uma de dois e entregou a Carlos, enquanto pegou o pacote grande de pipoca doce e a pequena garrafa de Coca.

"Não vai me sujar esse vestido, senão tu vai ver quando a gente chegar em casa! E não vira esse refri! Esse vestido é novo e tu não pode sujar… - a mulher começou a falar enquanto entregava o pacote e a garrafinha aberta para a filha e saiam caminhando, seguindo seu destino, enquanto o pipoqueiro perdia sua voz na distância.

Carlos estava acostumado a esse tipo de tratamento e sabia que não adiantava ser rude. Ele talvez nunca mais veria aquela mulher menina novamente. Não se importava se iria sujar a roupa com o melado da pipoca ou com o refrigerante gelado. Ele só precisava vender.

"Oi moço! Uma pipoca doce grande por favor?"

Carlos olhou para frente e viu um homem sorridente olhando para baixo e aos poucos erguendo o olhar para si. A voz que carlos ouviu era de uma menina pequena. Olhou para baixo, acompanhando o primeiro olhar do homem à sua frente. Uma menininha, de idade semelhante àquela que a pouco passara ali, estava em pé e sorridente à sua frente, com uma nota de dez reais apertada em sua mão fechada.

"Pois não, senhorita!" - respondeu Carlos, sorridente.
Agilmente, Carlos serviu o pacote de pipoca desejado pela sua jovem cliente.
"Aqui está."
Carlos entregou o pacote, enquanto a menina ergueu sua mão com a nota.
"Muito obrigado!" - disse Carlos, pegando o dinheiro.
Ele procurou entre seus trocados, uma nota de dois reais e entregou para a menina.
"Aqui seu troco."
"Muito obrigado, moço! Boa tarde"
"Boa tarde, senhorita! Bom apetite!"
"Boa tarde, e obrigado" - respondeu o homem, que devia ser o pai da criança, que saiu caminhando ao lado dela, seguindo seu destino.

E por um outro breve pensamento que passou na cabeça de Carlos, ele se sentiu feliz por ainda existirem pessoas educadas neste mundo.



Uma homenagem ao pipoqueiro que vejo quase todos os dias na parada do ônibus que pego para voltar para casa.

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