Vivemos em um país que foi construído pelo trabalho de escravos negros e imigrantes. Um país moldado à base da cultura dos indígenas que aqui viviam antes da colonização e aos poucos suprimida pela miscigenação cultural dos povos que vieram a trabalho, seja forçado ou na busca de um novo começo.
Os escravos, mão de obra barata adquirida por traficantes vindos da África com seus navios abarrotados de valiosíssima mercadoria, traziam consigo não só a força para o trabalho, mas a cultura antiga e rica, de seus antepassados africanos. Comidas, bebidas, esportes, danças, religião, cargas culturais que ainda hoje aderimos e apreciamos em nosso cotidiano. Depois vieram os imigrantes, italianos, portugueses, alemães, franceses, holandeses, que trouxeram para o Novo Mundo as suas culturas e crenças. Doces e salgados, esportes e danças, religiões e mitologia, uma bagagem cultural de valor histórico e intelectual inestimável.
O brasileiro, em si, é um povo sem uma cultura própria, ou com uma cultura resultante da mistura de todas as outras que aqui se assentaram. Não vemos por aí pessoas na rua conversando em Tupi Guarani ou Ocas/Templos de adoração a Tupã. O que vemos são igrejas católicas, templos evangélicos, sinagogas, mesquitas, terreiros e outros locais de veneração às diversas religiões. Se o brasileiro é um povo de muitas culturas, a menos seguida é a original de nossa terra.
Eu fui batizado e catequizado em uma igreja católica. Nesta época eu não fazia a mínima ideia de que existiam muitas outras religiões. Fiquei impressionado ao descobrir a quantidade - e a cada oportunidade que tenho, descubro uma nova - que existia. Desde então, com o decorrer do meu crescimento e ampliação de meu convívio social, conheci pessoas evangélicas, espíritas, judias, budistas, umbandas, inclusive espíritas que frequentam terreiros, judeus que visitam templos budistas, católicos que visitam igrejas universais, ou até uma maior intervisitação religiosa. Como é possível alguém de uma religião monoteísta frequentar o local de culto de uma religião politeísta? E ao contrário?
Religião não se resume a acreditar em Deus, Buda, Alá, Maomé, Krishna, Zeus, Odin, Tupã, Tiki ou outros. Religião é a forma encontrada para contar histórias antigas de seu povo e uní-las de modo a apontarem para uma única unidade de Deus ou panteão de Deuses, e as bases de todas as religiões são pregar a paz e a prática do bem. Infelizmente alguns líderes colocaram um adendo nessa regra descrita como “nem que seja à força!”, e isso podemos ver nos mais de cinco mil anos de história documentada da humanidade.
Guerras, lutas e massacres em nome de deuses que ordenam seus seguidores a levarem sua palavra aos outros povos, de outras culturas, crenças e divindades. A história da humanidade é escrita com tinta à base de sangue daqueles que não acreditaram e não quiseram seguir as crenças de seus conquistadores. Povos foram levados à extinção por não aceitarem que o deus do vizinho era o verdadeiro e não o seu. Onde está a “paz e a prática do bem”?
Nos dias atuais, vemos um rigoroso cuidado com as diferenças, sejam elas raciais, religiosas, sexuais, políticas ou sociais. Enquanto umas pessoas pensam amo menos dez vezes antes de falar algo que possa ser entendido como discriminatório, outras falam sem pensar e passam metade da vida pagando advogados para defendê-las de processos movidos por aqueles que acharam seus comentários ofensivos. Uma vista grossa feita por aqueles que estão prontos para apontar seus dedos para os outros e afirmar que eles estão sendo preconceituosos com sua cor/religião/sexualidade.
Hoje ainda há discriminação contra negros que, como vemos na televisão, muitos ainda são agredidos, presos injustamente, que não tem a oportunidade de uma promoção no trabalho ou sequer tem um emprego. Há a discriminação contra homossexuais, com homens e mulheres agredidos até a morte das piores formas possíveis e inimagináveis. Há também a discriminação religiosa onde… bem… hã… bom… Existe, de uma maneira ou de outra. Mas é discriminada por quem? Negros são discriminados por brancos. Homossexuais são discriminados por heterosexuais. Esquerdistas são discriminados por direitistas. Mas e os umbandas? São discriminados por católicos? Que são discriminados por evangélicos? Que são discriminados por islâmicos? É o religioso discriminando o religioso? É isso mesmo que vemos? Assim como o político corrupto falando mal de outro político corrupto, ou o sujo falando do mal lavado.
Num país cuja diversidade é o seu molde da estrutura social e política ao qual ele se baseou, é no mínimo imbecil a prática de atos ou até o pensamento preconceituoso contra aqueles que são diferentes ou tem opinião e crenças diferentes entre si. O fato de alguém afirmar e empurrar goela abaixo dos outros a sua crença, não o torna o “Senhor Dono da Verdade”, mas sim um ser patético de intelecto curto que tem preguiça de conversar e trocar conhecimentos com outras pessoas tão ou mais inteligentes quanto ele. Respeitar não é discriminar em pensamento e calar-se. O respeito é o sentimento que temos em admirar as qualidades do próximo, apontar-lhe em crítica construtiva seus erros, aceitar as críticas construtivas do outro e lhe desejar o bem acima de tudo.
Mas como vivemos em um país onde nossos líderes não respeitam o povo e as diversidades (velada sob discursos homofóbicos, machistas, anticulturais e educacionais), só o que nos resta é permanecermos calados, para não sermos processados pelo que escolhermos falar e corrermos o risco de sermos mal entendidos. É muito fácil falar mal da religião dos outros e depois dizer que está sendo discriminados por intolerantes à sua crença religiosa. Que tal manter-se calado aos seus discursos preconceituosos? Eu por exemplo, prefiro me retirar ao silêncio quanto minhas opiniões sobre as diversidades, que por melhores que sejam, sempre haverá alguém que entenderá errado minhas ideias e se aproveitará da oportunidade de retirar até meu último centavo e acabar com minha credibilidade e imagem (mesmo todas elas sendo muito baixas no momento em que escrevo isso). Prefiro voltar-me ao meu Tiki, pois sei que quando morrer ao menos não estarei junto de Hitler, Stalin, Pinochet ou Bush, pois eles escolheram o Deus errado (pior ainda para Stalin que não acreditava em deus nenhum).
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