Eu tenho um gato e ele me faz uma ótima companhia.
Nunca pensei que eu fosse ter algum animal de estimação. Me disseram que hamsters precisam de gaiola e que temos que limpá-la quase todos os dias. As aves hoje são proibidas. Peixes? Limpar aquários é um saco. E cachorros? Meus amigos disseram que devo ensinar ele a fazer xixi e cocô no jornal, ou na rua, e devo passear com ele ao menos duas vezes por dia, e eles latem, e tem um cheiro distinto (pra não dizer fedor). Não. Me disseram que gatos são tranquilos e amáveis, tirando as partes em que precisamos dar banho, limpar a caixa de areia ou ignorarmos quando eles começam a fazer suas maluquices de gato, mas eu achava que conseguia fazer isso. E consegui.
Kiko é um viralatinha que adotei com menos de um mês e virou meu companheiro de casa. Ele come, caga, dorme (normalmente em cima de mim, seja eu estando sentado no sofá ou deitado na cama), e frequentemente me pede carinho, ronronando enquanto esfrega sua cabeça em minha mão.
Tenho bastante cuidado com ele dentro de casa, colocando comida três vezes ao dia, pela manhã cedo, cedo da tarde e à noite quando vou dormir.
Ele gosta de sair de casa, passando horas ou até mesmo a noite inteira na rua, me acordando aos miados de madrugada ou de manhã cedo pedindo para entrar.
Acredito que Kiko tenha feito alguns amigos na rua, pois ouço miados e às vezes vejo os outros gatos por perto, como se chamassem Kiko para sair e brincar, mas ultimamente só tenho ouvido os miados e os barulhos dos gatos lá fora entrando e saindo das latas de lixo e revirando coisas no chão.
Acho que algum desses gatos pode ter tentado machucar Kiko, pois notei uma pequena casca de cicatriz nas suas costas, em meio aos seus volumosos pelos rajados. Desde então não tenho deixado ele sair, e mesmo assim ele não mostra muita vontade em ir pra rua, preferindo ficar em casa, comendo, cagando e dormindo em cima dos meus pés na cama, sempre por cima das cobertas.
Quando coloco comida para Kiko à noite, ele espera eu deitar para comer e depois sobe nas minhas pernas sobre a cama, fica lá deitado até a manhã seguinte, e eu sem poder me mover para não acordá-lo.
Gosto de ouvir o característico som da tijela de plástico arrastando pelo chão e dando leves batidas na parede, enquanto ouço os sons secos da ração sendo quebrada pelos dentes afiados de Kiko, sempre pouco antes de sentir seu peso sobre minhas pernas.
É normal, nessas noites mais movimentadas, eu acordar assustado com o som de algo caindo e perceber que é lá fora, e vejo Kiko sentado ao lado dos meus pés olhando para a janela, rosnando para o maldito gato brigão da rua.
Entretanto, ontem à noite, ocorreu um fato estranho. Como de praxe, servi a quantidade normal de ração no pote de Kiko, apaguei as luzes e fui me deitar. Logo senti ele subindo na cama, com seus pelos roçando em minhas pernas. Kiko permaneceu debaixo das cobertas, algo que ele nunca tinha feito antes, mas estava um pouco frio essa noite e certamente ele queria se aquecer. Mas isso não era o fato estranho. Estranho foi quando, uns minutos depois, quando eu estava prestes a adormecer, ouvi o característico e agradável som do plástico arrastando no chão e batendo levemente na parede, enquanto seguiam os sons secos da ração sendo quebrada por dentes afiados. Foi aí que percebi que o leve rosnar de Kiko reverberava debaixo das cobertas, enquanto eu sentia seus pelos em minhas pernas. Kiko estava comigo no meu quarto, e o pote com a ração fica na sala.
Hoje vou vistoriar e vedar todas as aberturas de casa.
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