Acho muito bonito o pôr do sol no lago à beira da cidade. Mesmo com a sujeira, violência, bandidos, acidentes, brigas, altos impostos, roubos de merendas, assaltos à escolas, corrupções, escândalos sexuais, programas de violência sensacionalistas de televisão, dentre outras coisas, muitas pessoas ainda gostam de aproveitar seus finais de tarde à beira do lago, com amigos e familiares, conversando e se divertindo, enquanto observam o sol se pôr, num degradê alaranjado que envolve o céu ocidental da cidade.
Gosto de observar o ondular das águas, mesmo elas sendo marrons, com cheiro desagradável, espumas de origem duvidosa trazidas pelas pequenas ondas ou levando, em sua correnteza, objetos de aparência desagradável que boiam sem rumo até afundarem, se decomporem ou encalharem na costa. O movimento que a água faz, turvando e distorcendo o reflexo das margens do outro lado do lago e do sol ainda descendo no horizonte, é uma imagem tranquilizadora, que faz-me esquecer os problemas e desventuras do cotidiano.
Diversas vezes observei pessoas, normalmente moradores de rua, banharem-se nestas águas impróprias para banho, refrescando-se de calores quase insuportáveis, divertindo-se espirrando água uns nos outros, sem medo de contraírem hepatite, leptospirose ou cólera. Certamente elas não fazem a mínima ideia do que quer dizer cada uma dessas palavras, simplificando em “alguma doença dessas aí”.
Certa vez imaginei se poderia acontecer de eu mergulhar nestas águas e, ao invés de ficar submerso, eu emergiria do outro lado, em um lago de águas cristalinas, insípidas e inodoras, que costeiam uma cidade limpa, segura, que compõem um lugar com altos níveis de educação, saúde e emprego, onde todas as pessoas são honestas e trabalhadoras, e os programas de televisão são educativos e instrutivos. Um lugar inverso ao que eu vivo.
E se nesse lugar inverso vivessem as mesmas pessoas que vivem aqui? E se existisse uma versão minha neste lugar inverso? Se eu mergulhasse aqui e saísse no Lugar Inverso, o meu eu do Lugar Inverso mergulharia nas águas cristalinas e emergiria nas águas marrons fedidas daqui? Seria uma troca justa?
Bom. Prefiro ficar onde estou e não sacanear meu outro eu, forçando-o a viver aqui, neste lugar que já estou acostumado. Prefiro então só ficar sonhando, pois é o que nos resta fazer.
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